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DESMANCHE
perturbações da matéria

 [em processo ]

Desmanche, perturbações da matéria é um campo de pesquisa que coloca o corpo e a dança como mecanismo de revelação de um ambiente. A partir das relações e as tensões envolvidas em torno de um corpo confinado, esta investigação questiona sobre como os objetos e matérias a nossa volta modulam física, mental e psiquicamente um corpo. A dança produto desta investigação se edifica como metáfora de um corpo oco, corpo de passagem, corpo que produz e reage ao seu meio de maneira instintiva como modo de encontrar novos alicerces de sobrevivência. 

 

“Toda edificação contém em si o seu desmanche” é o trilho poético que detona os questionamentos em torno da construção de um corpo que revela sua condição, deformação, ao mesmo tempo que sua própria mutabilidade é em si a construção de um circuito infinito de resiliência. Esse imaginário idealizado caminha junto de idéias e questionamentos em torno da relação entre nosso modelo socioeconômico e a produção de cadeias de sofrimento para além das estruturas econômicas do neoliberalismo. Apostando nesse mecanismo de revelação a produção de um corpo e uma dança que seja não apenas denúncia de modos de construção de afetos e patologias contemporâneas, como também de um corpo matéria possível de indicar caminhos de sobrevivência e resistência diante de ambientes tão opressores. 

PRÁTICA_

Desmanche, propõe pensar as relações entre corpo e matéria de maneira a  investigar as transformações, interferências e a produção de corporeidades a partir desta relação. Para tanto, esta pesquisa encara a relação entre corpo e objeto como uma tecnologia, como um meio, uma interface de produção de gestos e movimentos possíveis desta relação.

 

A fim de iniciar um contorno de comunicação entre corpo, espaço e objetos, esta pesquisa se utiliza de um mecanismo de tradução do seu meio a partir da dimensão do desenho. Essa premissa encantatória que se dá na relação do corpo com seu espaço busca ficcionar as relações de alteridade entre o corpo e as coisas, sejam elas animadas ou não. Este mecanismo de tradução cria um corpo de passagem, um corpo paisagem, um corpo gerador e digestor de suas interferências e influências ao criar um modo de ver o espaço em procedimentos e instruções que o ficcionalizam criando uma dinâmica visual e lúdica com ele. Estas instruções tramadas a partir da relação entre gesto e desenho é um caminho que permite e que dá a imaginação maneiras de ver o espaço de um local em sua dimensão real e em sua dimensão ficcional (invisível, virtual). Como uma brincadeira, o corpo busca traduzir as linhas de um espaço - visíveis e invisíveis - como forma de corporificar as matérias do seu entorno. 

 

Esse recurso coreográfico inicial estrapola a medida que essas instruções criam no próprio corpo um jeito de ser, uma corporeidade, uma maneira, uma qualidade. Ao vermos linhas do espaço, formas e volumes encarnados no corpo, o corpo como uma tela, temos a possibilidade de enxergar um fantasma do próprio espaço, e um fantasma das matérias. Essa estrutura invisível que permeia todas as coisas e que necessitam de um local, um hospedeiro, para tomar forma no mundo. Essa estratégia coreográfica de revelação leva o nome de corpo em desenho e é um apêndice, uma prática que dá alicerce e estrutura inicial à construção desta dança.

 

 

Corpo em desenho
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(...) as linhas nascem do poder de abstração da mente humana, pois não há linhas corpóreas no espaço natural. Sem duvida, percebemos a linha do horizonte, assim como também percebemos linhas em figuras humanas ou em rostos. Mas, fisicamente, essas linhas não existem. A pele de um rosto, por exemplo, não é composta por linhas. Quando alteramos nosso ponto de observação, elas desaparecem e dão lugar a outras linhas, tão incorpóreas quanto as primeiras. Ao percebe-las, no ato mesmo da percepção, as interpretamos variadamente, como manifestação de energias naturais, de forças que se expandem ou se contraem, ou como pessoas e objetos presentes. Muitas vezes, porém, nem partimos de observações diretas. Para nós, pode haver “linhas” que provenham do registro mental de certos acontecimentos e que estão sendo comparadas, mentalmente, em nossa memória, com o alcance e a direção de novos acontecimentos.[…] Produzidas pela mão humana, as linhas se tornam fato fisico. Sempre, porém, elas preservam certas características da origem mental imaginaria. Se compararmos, por exemplo, linhas com cores, sentimos de imediato o clima expressivo diferente. Enquanto a linha evoca toda um ambiente intelectual, a cor é antes de tudo sensual.” (OSTROWER,F. )

 

 

Corpo em desenho é uma ferramenta coreográfica que gira em torno da construção de estratégias através de ordenações que possibilitam a relação entre corpo, desenho e espaço, criando assim possibilidade de tradução de uma informação visual em um gesto de dança. O mecanismo de produção de gestos se dá a partir de um treino que envolve: 1) o aguçar da percepção para a visualização das linhas virtuais (desenhos) de um espaço, e de seus objetos; 2) a reprodução destas linhas virtuais através de um gesto que as sintetizem; 3) adição de pequenas operações que cruzam as diretrizes 1 e 2 equalizando o transito entre as informações coletada (desenho/linha) e sua reprodução gestual. Ao longo de sua ação, estas tarefas coreográficas imprimem no corpo as linhas virtuais do espaço em um exercício de tradução entre a linha visualizada e o gesto desenhado.  

 

É importante lembrar que a percepção do espaço como desenho se dá, antes de mais nada, pelo entendimento das linhas como elemento visual intrínseco no nosso cotidiano. Elemento que conjuga e ordena os movimentos visuais, as sensações e as dinâmicas que compõem um espaço e os corpos inseridos nele. As linhas, são um dos vocábulos que constituem a linguagem visual, dentre superfície, volume, cor e luz, a linha isolada configura um espaço linear, de uma dimensão, e está ligada a sensação de direcionamento no movimento visual como coloca Fayga Ostrower: 


“ A linha (cada segmento linear) cria, essencialmente, uma dimensão no espaço. Ela é vista como portadora de movimento direcional. Introduzindo intervalos, ou contrastes de direção, reduzindo a velocidade do movimento. […] Assim, há sempre um efeito simultâneo que abrange espaço e tempo: maior velocidade = menor peso visual; menor velocidade = maior peso. […] A essa dimensão única é acoplado o tempo, pois qualquer elaboração formal que façamos com a linha terá, necessariamente, caráter rítmico. Introduzindo pausas e modulando-se as velocidades das linhas, modula-se o fluir do tempo.” 

 

A materialidade produzida por este corpo dentro desta prática tem suscitado termos e palavras que possibilitam a construção de um universo que tangencia questões a cerca do acúmulo de informação, dos excessos visuais e do corpo como processamento. Nesse sentido, o corpo aqui produzido define, resume, acumula, abriga, adultera e modifica energias e informações provenientes do espaço que se relaciona. Este contorno nos permite dizer que esta dança, possui uma espacialidade bastante verticalizada e um percurso de ação circular entorno do seu próprio eixo. É uma dança acumulativa que tende energeticamente a constantes ápices e desmontes, um cíclico construir e desmanchar. Um corpo em forma de canal que produz incessantemente em tempo e resposta imediata. Este excesso de informação, atrelado a obsessividade recortada pelos limites da ferramenta coreográfica, denota um corpo achatado pela velocidade, pelos excessos, e o seu iminente fracasso. 

FICHA

Criação e Performance:
Talita Florêncio

 

Desenho de Som:
Thiago Salas

 

DESMANCHE